Em 28 de outubro de 2025, a Operação Contenção deixou 121 mortos nos Complexos da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro. Foi a operação policial mais letal da história do Brasil. Pesquisa Quaest divulgada poucos dias depois mostrou um dado que pegou analistas de surpresa: 67% dos brasileiros aprovaram a operação. Em outras pesquisas, esse índice chegou a 76% no eleitorado de direita.

Não é casual que, nos meses seguintes, governadores de direita tenham se reunido duas vezes com Cláudio Castro e anunciado o "Consórcio da Paz". Não é casual que Ronaldo Caiado tenha elogiado publicamente a operação como "a mais bem realizada estrategicamente do país". Não é casual que a aprovação do governo Lula tenha caído 3 pontos depois do episódio. E não é casual que cientistas políticos passaram a chamar 2026 de "a eleição da segurança pública".

Para qualquer candidato — de vereador a senador — que ignorar o peso desse tema na disputa de 2026, há uma certeza estatística: vai perder votos para quem souber capturá-lo. Neste artigo, explicamos como mapear o "voto do medo" com dados eleitorais e por que ele não está distribuído como muitos imaginam.

O tema que mudou a conversa do ciclo eleitoral

Até outubro de 2025, a disputa de 2026 era debatida basicamente em três eixos: economia, anistia a Bolsonaro, e sucessão presidencial. Segurança pública aparecia como tema secundário, geralmente associado a Rio e São Paulo. A Operação Contenção mudou isso de uma vez. Em poucas semanas, segurança virou o tema central — superando inflação, emprego e até a discussão sobre o fim da escala 6×1.

A pesquisa Quaest de novembro mostrou três sinais inéditos:

Esse último dado é o mais explosivo. Significa que o tema da segurança pública atravessa a polarização: ele rompe o eleitorado lulista, captura indecisos, e consolida o eleitorado conservador. E é exatamente esse tipo de tema que decide eleições disputadas.

67% de aprovação à operação mais letal da história. Esse não é apenas um número de pesquisa — é um sinal de que a sociedade brasileira está respondendo ao tema da segurança de forma diferente do que respondia há cinco anos. Para candidatos, ignorar esse sinal é abrir mão de votos onde eles estão disponíveis em maior quantidade.

O Consórcio da Paz e o reposicionamento da direita

Após a operação, sete governadores de direita formaram o "Consórcio da Paz" — uma frente para coordenar políticas de segurança pública, trocar informações de inteligência e, na prática, criar um contraponto ao governo federal. O grupo inclui Cláudio Castro (RJ), Tarcísio de Freitas (SP), Ronaldo Caiado (GO), Romeu Zema (MG), Ratinho Jr (PR), Jorginho Mello (SC) e Eduardo Riedel (MS).

O objetivo declarado é cooperação técnica. O objetivo eleitoral é claríssimo: marcar posição como "garantidores da ordem". Cada um desses governadores é candidato (à Presidência, ao Senado ou à reeleição) — e todos sabem que segurança pública é o tema que melhor mobiliza o eleitorado conservador médio, aquele que não é ideológico mas é "preocupado com a violência".

Para Lula, isso cria um dilema duplo. Sua base mais à esquerda exige cautela com a letalidade policial, defesa de direitos humanos e críticas a operações como a Contenção. Mas a maioria dos eleitores — incluindo parte de sua própria base — quer firmeza. Tentar agradar os dois lados é o caminho mais rápido para perder ambos.

O que é o "voto do medo" — e onde ele está

"Voto do medo" é o termo usado por cientistas políticos para descrever o eleitor cuja decisão de voto é fortemente influenciada pela percepção de insegurança. Não é necessariamente alguém que foi vítima de crime — é alguém que sente que "as coisas estão fora de controle" e procura um candidato que projete autoridade e firmeza. É um eleitorado que existe em todo o Brasil, mas não está distribuído uniformemente.

Os dados do Atlas da Violência cruzados com votação histórica mostram um padrão claro: o "voto do medo" está mais concentrado em três tipos de território:

O contra-intuitivo é que esses três tipos de território nem sempre são os mesmos onde a direita já é forte. Há municípios do Norte e Nordeste com perfil tradicionalmente lulista que viraram "voto do medo" nos últimos anos — e que, em 2026, podem migrar parcialmente para candidatos que projetem firmeza em segurança, mesmo sem mudar identidade ideológica completa.

Como o Vottus mapeia o voto do medo

O Vottus integra três fontes principais para identificar onde está o eleitorado mais sensível ao tema da segurança:

1. Dados de violência por município

O Atlas da Violência (FBSP/IPEA) divulga anualmente índices de homicídio, roubo, latrocínio e violência letal por município. Esses dados, cruzados com a base do TSE, mostram quais zonas eleitorais têm maior exposição cotidiana à violência — e, portanto, maior sensibilidade a candidaturas que abordam o tema.

2. Histórico de votação em candidatos "linha-dura"

Em 2018, candidatos como Wilson Witzel (RJ), Romeu Zema (MG) e o próprio Bolsonaro venceram com forte discurso de segurança. O mapa eleitoral por zona do Vottus permite ver exatamente onde esses candidatos foram mais votados, e usar isso como indicador de "potencial de voto do medo" hoje.

3. Perfil ideológico cruzado

Nem todo eleitor preocupado com segurança é conservador em outras pautas. Há "conservadores de costumes, liberais econômicos, sensíveis à segurança"; há "moderados que normalmente votam centro mas migram para a direita quando o tema é violência"; há até "lulistas decepcionados com a segurança". O perfil ideológico por município do Vottus identifica essas combinações para que candidatos calibrem mensagem com precisão.

📊 Caso prático: identificando o eleitor de segurança no interior

Em Mato Grosso, vários municípios do norte do estado tiveram aumento de homicídios acima da média nacional nos últimos 3 anos, em função da expansão de facções. Esses municípios votaram majoritariamente em Bolsonaro em 2022 — mas a base é frágil e parte do eleitorado é "voto pendular" entre direita tradicional e centro-direita pragmática. Para um candidato a deputado federal por MT, identificar esses 30-40 municípios e calibrar comunicação com foco em segurança pode render mais voto do que qualquer outra estratégia regional.

O dilema dos candidatos de centro e esquerda

Se você é candidato de esquerda ou centro-esquerda, ignorar o tema da segurança não é mais uma opção. Os dados mostram que o eleitorado quer ouvir propostas concretas — e quem não apresenta perde para quem apresenta, mesmo que apresente algo ruim.

O caminho não é copiar o discurso da direita (não funciona — soa falso), mas construir uma proposta própria que combine firmeza e inteligência: investigação financeira de facções, cooperação federativa, fortalecimento de polícias civis, foco em líderes e não em soldados. O exemplo do Ceará, onde o governo petista vem adotando postura mais ostensiva sem abandonar a discussão sobre direitos humanos, mostra que existe espaço — mas o equilíbrio é delicado e exige saber exatamente com qual eleitor você está falando em cada região.

É aí que dados eleitorais fazem diferença. Em municípios onde o eleitor lulista tradicional ainda é maioria, o discurso pode enfatizar prevenção e investimento social. Em municípios onde o eleitor é mais sensível ao "voto do medo", o discurso precisa enfatizar resultados concretos e firmeza. O mesmo candidato pode (e deve) calibrar o tom por região — e essa calibragem só é possível com dados.

Quatro perguntas que toda campanha precisa responder sobre segurança

1. Quais municípios da minha região têm maior preocupação com segurança?

Cruzando dados de violência (Atlas) com pesquisas qualitativas locais, é possível mapear isso com precisão. O Vottus integra essas fontes para o trabalho ficar viável.

2. Como esse eleitorado votou em 2018 e 2022?

O comportamento histórico mostra se o tema já foi decisivo na região ou se é novidade. Regiões onde Bolsonaro cresceu muito entre 2018 e 2022 frequentemente são onde a violência aumentou no mesmo período.

3. Qual perfil ideológico domina nesses municípios?

Saber se o eleitor é "conservador ideológico" ou "moderado preocupado" muda completamente a mensagem. O cruzamento TSE/IBGE revela essas nuances.

4. Que tipo de proposta ressoa em cada região?

Em alguns territórios, a palavra "operação" mobiliza voto. Em outros, mobiliza rejeição. Em alguns, "polícia mais forte" é positivo; em outros, soa ameaçador. A calibragem regional não é detalhe — é o que separa quem vence quem perde.

A eleição da segurança

Em 2018, a economia foi o tema central. Em 2022, foi a polarização Lula vs Bolsonaro. Em 2026, há um consenso entre cientistas políticos: a segurança pública será o tema que vai mover mais voto. A operação no Rio acelerou essa tendência, mas não criou ela. O que ela fez foi cristalizar um sentimento que já existia — e dar à direita uma bandeira que ela vinha buscando desde a condenação de Bolsonaro.

Para candidatos que querem vencer em 2026, há duas escolhas: ou aprender a falar sobre segurança com dados e propostas, ou perder votos para quem aprender. Não existe terceira opção. E, como em toda eleição, vence quem mapeia o eleitor antes do adversário.

121 mortos. 67% de aprovação. 50% de desaprovação ao governo. A Operação Contenção não foi apenas uma operação policial — foi um sismógrafo do que vai mover voto em 2026. Quem souber ler o sismógrafo vai eleger candidatos. Quem ignorar vai descobrir, em outubro, que a urna respondeu uma pergunta que ninguém estava fazendo.

Mapeie o voto do medo com dados de violência e TSE

Cruzamento Atlas da Violência + TSE + IBGE para identificar onde está o eleitor mais sensível à segurança pública e como calibrar mensagem por região.

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