Na sexta-feira 3 de abril de 2026, às 23h59, fechou-se a janela partidária mais movimentada dos últimos quatro anos. Em apenas 30 dias, pelo menos 122 deputados federais trocaram de legenda — praticamente um em cada quatro parlamentares da Câmara. Segundo levantamento do Congresso em Foco, o número é quase idêntico ao da janela de 2022, quando 121 deputados migraram.
Mas o que parece ser apenas uma dança das cadeiras esconde uma reconfiguração estrutural do poder eleitoral brasileiro. O PL saltou de 86 para 101 cadeiras, consolidando-se como a maior bancada da Casa. O União Brasil perdeu 15 deputados. O PDT desabou de 16 para 6 — perdeu mais da metade de sua representação. E tudo isso acontece antes mesmo da campanha oficial começar, redefinindo quanto cada partido terá de Fundo Eleitoral e de tempo de TV na disputa de outubro.
Neste artigo, mostramos o novo mapa de forças na Câmara, analisamos os corredores de migração mais usados, e explicamos como usar dados eleitorais para recalcular a força real de cada candidato no seu território depois da janela.
O placar final: quem ganhou e quem perdeu
A janela partidária é um período de 30 dias, previsto em lei, em que deputados federais, estaduais e distritais podem trocar de partido sem perder o mandato. A regra, criada pela reforma eleitoral de 2015, funciona como exceção à fidelidade partidária — a Justiça Eleitoral entende que, no sistema proporcional, o mandato pertence ao partido, não ao candidato. Senadores, governadores e o presidente, por ocuparem cargos majoritários, não precisam dessa exceção: podem mudar de legenda a qualquer momento.
O saldo consolidado da janela de 2026, segundo dados compilados pelo Congresso em Foco, Diap e Poder360, mostra uma reconfiguração clara no centro e na direita do espectro político:
| Partido | Antes | Depois | Saldo |
|---|---|---|---|
| PL | 86 | 101 | +15 |
| Podemos | 16 | 24 | +8 |
| PSDB | 14 | 19 | +5 |
| PSD | 47 | 47 | 0 |
| PT | 67 | 66 | -1 |
| PDT | 16 | 6 | -10 |
| União Brasil | 59 | 44 | -15 |
Três leituras saltam aos olhos. Primeiro, o PL consolidou a hegemonia da oposição: com 101 cadeiras, é hoje a maior bancada da Câmara, à frente inclusive do PT (66), segundo maior partido. Isso altera o cálculo da Mesa Diretora, das CPIs e das relatorias de projetos estratégicos até o fim da legislatura. Segundo, o União Brasil pagou o preço da fragmentação interna: 28 deputados deixaram a legenda ao longo da janela — a sigla conseguiu compensar parcialmente com 13 adesões, mas terminou como a maior perdedora líquida. Terceiro, o PDT teve uma desidratação severa: com bancada reduzida à metade, o partido passa a enfrentar sérias dificuldades para atingir a cláusula de desempenho nas eleições de outubro.
Em termos práticos, cada deputado a mais ou a menos representa milhões de reais do Fundo Eleitoral (que neste ciclo soma R$ 4,96 bilhões) e segundos preciosos de propaganda gratuita no rádio e na TV. O saldo de +15 do PL significa recursos de campanha significativamente maiores do que o partido teria com a bancada original.
Os quatro corredores de migração mais movimentados
Analisar partidos isoladamente esconde o que há de mais interessante na janela: os fluxos de migração. Quando se olha para os pares de origem e destino, fica claro que a janela de 2026 não foi uma dança aleatória, mas um realinhamento pragmático concentrado em quatro corredores principais.
1. União Brasil → PL
O corredor mais movimentado. Diversos deputados de centro-direita, eleitos em 2022 pelo União Brasil, migraram para o PL buscando se alinhar à candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro e ao maior acesso ao Fundo Eleitoral. Entre os casos mais emblemáticos estão Coronel Assis (MT), Nicoletti (RR), Padovani (PR) e Cezinha de Madureira (SP, vindo do PSD).
2. União Brasil → Podemos
O segundo corredor mais usado foi o União Brasil → Podemos. Nomes como Delegado Palumbo (SP, vindo do MDB) e Felipe Becari (SP) fizeram essa rota, buscando um ambiente partidário menos fragmentado e com menor pressão interna. O resultado foi o salto do Podemos de 16 para 24 deputados — crescimento proporcional maior que o do próprio PL.
3. Republicanos → União Brasil
Em sentido inverso, o União Brasil recebeu reforços do Republicanos, especialmente em estados onde o União tem estrutura partidária regional mais sólida. Esse corredor compensou parte das perdas do partido, embora não tenha sido suficiente para zerar o saldo negativo.
4. PSD → PL
O PSD funcionou como partido de passagem para o PL em estados onde Gilberto Kassab não conseguiu oferecer palanque estadual competitivo para os parlamentares. Sargento Fahur (PR) e Vitor Lippi (este para o PSD, vindo do PSDB) ilustram o sentido dessa movimentação — muitas vezes motivada menos por ideologia e mais pela perspectiva de aliança com governadores ou candidatos presidenciais.
O padrão comum nos quatro corredores é revelador: as trocas não foram ideológicas, foram territoriais. Deputados buscaram legendas com estrutura mais forte nos estados onde precisam se reeleger, com melhor acesso a fundo, com chapas mais competitivas e com alianças mais vantajosas para o segundo turno do governo estadual. A janela não redesenhou o Congresso — ela redesenhou as condições de sobrevivência eleitoral de cada parlamentar.
O retrato regional: onde a janela foi mais intensa
Quando se observa o peso das mudanças dentro de cada bancada estadual, o mapa ganha outra dimensão. O dado mais impressionante vem de Roraima: 6 dos 8 deputados federais do estado trocaram de partido — 75% da bancada inteira. É a maior reconfiguração proporcional da janela.
Goiás também teve movimentação intensa: 52,9% dos deputados federais mudaram de legenda. Estados como Ceará, Mato Grosso e Rondônia viram aproximadamente metade de suas bancadas se reposicionarem. Do outro lado, estados grandes como São Paulo e Minas Gerais registraram percentuais menores — mas em números absolutos, SP liderou o volume de trocas.
Esse padrão regional importa porque a reeleição de deputado federal não se ganha em números nacionais, se ganha município por município. Um parlamentar que sai do União Brasil para o PL em Roraima não leva seus votos "no bolso" — leva sua estrutura local, sua rede de vereadores, seu histórico de entregas. Se a nova sigla não tiver presença consolidada na base desse deputado, a migração pode ser um tiro no pé.
🎯 Como o Vottus analisa a força pós-janela
O módulo de Análise de Força Partidária do Vottus permite recalcular, município por município e zona por zona, como a redistribuição de deputados entre os partidos altera o potencial eleitoral de cada chapa. Cruzando os 215 milhões de registros de votação do TSE com as novas filiações, é possível visualizar em tempo real onde o PL ganhou musculatura real (e não só numérica), onde o União Brasil se enfraqueceu em seus redutos históricos, e onde a migração de um deputado criou vácuos de representação aproveitáveis por candidatos menores.
O impacto no Fundo Eleitoral e no tempo de TV
Aqui está a parte que muitos candidatos ignoram até ser tarde demais: a janela partidária altera diretamente a quantidade de recursos de campanha que cada partido terá em 2026. O Fundo Especial de Financiamento de Campanha — o chamado Fundo Eleitoral — é distribuído proporcionalmente ao tamanho das bancadas na Câmara. Quanto maior o partido, maior o bolo.
Neste ciclo, o Fundo Eleitoral soma R$ 4,96 bilhões, valor recorde. Com 101 deputados, o PL passa a receber a maior fatia individual. O União Brasil, que pré-janela estava entre os três maiores beneficiários, despenca para uma faixa inferior. O PDT, com apenas 6 deputados, fica na fronteira do que consegue sustentar uma campanha nacional competitiva.
O tempo de propaganda gratuita no rádio e na TV segue a mesma lógica. A legislação distribui o tempo de antena proporcionalmente ao tamanho das bancadas, o que significa que partidos que cresceram na janela terão mais minutos diários para se comunicar com o eleitor em agosto e setembro. Cada segundo conta: estudos mostram que a propaganda gratuita é um dos fatores mais relevantes na decisão de voto do eleitor indeciso, principalmente em disputas estaduais para o Senado e o governo.
Para candidatos a deputado federal e estadual, isso tem consequência prática imediata: a chapa que você integra agora tem mais (ou menos) recursos do que tinha há 30 dias. Ignorar essa realidade na hora de planejar o orçamento de campanha, a distribuição de material, e a alocação de equipe é começar a disputa em desvantagem.
Como recalcular sua força eleitoral depois da janela
Se você é candidato, consultor ou estrategista de campanha, há quatro perguntas que precisam ser respondidas com dados — e não com intuição — nas próximas semanas:
1. Qual é a minha nova força nos meus municípios-chave?
A migração de outros parlamentares para dentro do seu partido significa mais concorrentes pela mesma base? Ou entrou gente que soma? O mapa de votos por zona eleitoral do Vottus permite visualizar essa sobreposição com precisão de seção. Se dois deputados do seu novo partido têm redutos sobrepostos, vai haver canibalização — e você precisa saber disso antes de definir sua estratégia territorial.
2. Quais votos da sigla anterior ficam "órfãos"?
Quando um deputado sai de um partido, leva sua base pessoal — mas os votos de legenda ficam. Quem votou no partido (e não no candidato específico) nas eleições de 2022 continua filiado emocionalmente à sigla. O módulo de votos órfãos do Vottus quantifica quantos eleitores são esses em cada zona, e onde eles estão mais concentrados. Em redutos históricos do União Brasil, por exemplo, há uma massa de votos de legenda que ficou sem candidato principal depois das saídas.
3. Como a nova distribuição de Fundo Eleitoral afeta o meu orçamento de campanha?
Campanhas são cada vez mais decididas por quem consegue combinar dado com execução. Saber que seu partido terá R$ X milhões a mais ou a menos muda profundamente o que faz sentido fazer nos próximos cinco meses. O planejamento por custo por voto — área em que o Vottus entrega benchmarks históricos — se torna ainda mais crítico depois da janela.
4. Quais alianças estaduais fazem sentido com a nova configuração?
A janela altera as chapas proporcionais para a Câmara e também o cálculo das alianças para o Senado e o governo. Um governador que perdeu bancada na Câmara tem menos fôlego para fazer puxada de voto; um governador que ganhou, mais. O perfil ideológico por município do Vottus ajuda a identificar em quais regiões as alianças que fazem sentido politicamente são também as que fazem sentido eleitoralmente.
A janela fechou, a disputa começou
As trocas consolidadas até 3 de abril são o novo ponto de partida para a eleição de outubro. Daqui pra frente, o que importa não é quem trocou de legenda — é o que cada candidato vai fazer com a configuração que sobrou. O PL tem mais recursos, mais tempo de TV e mais presença estadual. Mas também tem mais candidatos disputando a mesma base, o que pode gerar canibalização interna se não for bem calibrado. O União Brasil perdeu peso no Congresso, mas pode recuperar vantagem estratégica se as saídas tiverem concentrado eleitores órfãos em regiões onde a sigla ainda tem identidade.
A única certeza é que os mapas eleitorais de março já não servem mais. Quem continuar planejando a campanha com dados pré-janela está planejando com um mapa do Brasil que não existe mais.
Recalcule sua força eleitoral pós-janela
Visualize, município por município, como a redistribuição das 122 trocas alterou a força real de cada partido no seu território.
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